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domingo, 4 de janeiro de 2015

“A pesquisa é um elemento científico da política e não é algo subjetivo”

O consultor econômico traça o cenário econômico que os novos governadores encontrarão a partir de 2015.
Um dos técnicos mais respeitados do Amapá atualmente, em que pese a pouca idade, Antônio Teles Júnior foi uma das mais importantes fontes de consulta da imprensa amapaense na campanha eleitoral deste ano. A convite da Diário FM, ele foi entrevistado ontem no programa Conexão Brasília, pelo jornalista Cleber Barbosa. Falou sobre as pesquisas de intenção de votos da disputa do domingo passado, mas também sobre como as pesquisas estão ajudando não apenas empresas como governos e órgãos federais que apostam em gestões mais arrojadas. Também fez projeções para o cenário econômico que os novos governadores encontrarão a partir de 1º de janeiro do ano que vem. Os principais trechos da entrevista o Diário do Amapá publica a seguir.

Cleber Barbosa
Da Redação

Diário do Amapá – O Ibope mais acertou ou mais errou nas pesquisas da eleição da semana passada no Amapá?
Antônio Teles Júnior – Acertou. Acertou também no primeiro turno e também nas projeções, com uma pequena falha na votação do atual governador Camilo, mas no segundo turno acertou com uma precisão muito boa, precisão de um enfermeiro, pode-se dizer, ao pegar uma veia.

Diário – O que foi preponderante para a liberação da última pesquisa do Ibope, que foi questionada pela coligação do governador Camilo, mas que acabou sendo divulgada na véspera da eleição como aconteceu no país inteiro?
Teles – Eu sou um crítico aberto da forma como a Justiça atuou nessa eleição. Eu penso que a Justiça tem limites e não pode interferir permanentemente no processo eleitoral, pois a nível nacional você tinha a publicação de pesquisas de três dias de registro, isso é direito de acesso à informação. O que vai estabelecer a credibilidade de uma pesquisa não é o fato dela ser divulgada ou não e sim o instituto, é ele que vai se responsabilizar por sua credibilidade. Os que acertarem os resultados vão ter mais credibilidade dos que errarem. Esse é um ponto, eu acho que as pesquisas não devem ser regulamentadas em período eleitoral.

Diário – E o outro ponto?
Teles – Vou lhe dar um argumento científico. Os estudos realizados agora nessa eleição mostram que o efeito da pesquisa na intenção de voto não é tão relevante quanto se pensa, tem apenas um efeito esporádico. Ele é um overchute, o que acontece é que ocorre a divulgação da pesquisa, aí o candidato que apareceu na frente vai ter uma variação apenas esporádica, não é permanente, então é falsa a ideia de que a pesquisa influencia no resultado da eleição. O que influencia no resultado da eleição é a tendência, aí é diferente. Se pesquisa influenciasse no resultado da eleição o candidato Gilvam Borges, por exemplo, era senador da República hoje.

Diário – Ele aparecia com uma folgada liderança.
Teles – No dia 13 de agosto ele estava numa liderança com uma margem significativa de votos, mas quando se estabeleceu a tendência do dia 13 ao dia 05 de outubro aí sim o candidato Davi Alcolumbre criou condições de virar a eleição.

Diário – O que foi identificado na pesquisa do dia 3 de outubro, não foi?
Teles – Sim, foi identificado. A pesquisa de véspera mostrou a possibilidade e o que houve na reta final foi um processo político de migração porque o PSB na última hora direcionou o voto para o candidato Davi. Então por isso eu digo que não há elementos para um juiz eleitoral definir uma pesquisa, primeiro porque ele não domina o conhecimento científico sobre essa técnica e segundo que ele no máximo pode dar uma opinião sobre os termos de regulamento da divulgação da pesquisa, mas ainda assim é uma aberração típica do Brasil essa de querer regulamentar tudo, foi um equívoco as decisões de impugnação de pesquisas. A pesquisa é um elemento científico da política e não é algo subjetivo.

Diário – As pesquisas de intenção de voto ganham toda essa notoriedade no período eleitoral, mas elas norteiam outras ações, como por exemplo a avaliação de governos como a que foi feita em todo o país no fim do ano passado, quando o atual governador Camilo já aparecia com altos índices de rejeição, não foi?
Teles – Sim, infelizmente no Amapá ainda temos formas arcaicas de gestão, mas no setor privado isso já está muito disseminado com as pesquisas de mercado, utilizados como elemento estratégico de tomada de decisão, tanto no âmbito da comunicação e do marketing como também das decisões gerenciais internas da empresa para poder sobreviver no mercado, isso já e consenso. Nos governos estaduais e nos órgãos federais já existem também uma tendência nesse sentido, de ter a pesquisa como elemento de auxílio da gestão.

Diário – Dá para citar um exemplo?
Teles – Sim, Minas Gerais inovou bastante no ano de 2002 quando implementou a gestão por resultados. O Sebrae também é um exemplo de instituição que só atua com base em pesquisa e avalia seus resultados a partir de pesquisas, então a pesquisa não é um elemento puramente político ela também é um elemento de gestão, de auxílio na gestão. Quisera que as nossas instituições aqui no Amapá, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo utilizassem a pesquisa como elemento de auxílio. Não tenho dúvidas que eles teriam hoje melhores resultados do que apresentam hoje.

Diário – Mas o senhor também é professor e economista, então pode falar com propriedade sobre o cenário que os eleitos na disputa das urnas este ano irão encontrar a partir de 1º de janeiro. Fala-se que haviam notícias ruins como aumento dos combustíveis e da energia que deixaram de ser divulgados só porque era época de eleição. Isso é verdade?
Teles – Essa omissão de informações durante o período eleitoral, por parte do Governo Federal, foi uma postura extremamente grave do ponto de vista da democracia. O governo central simplesmente omitiu um conjunto de dados macroeconômicos que deveriam sinalizar para a sociedade a atual conjuntura. A verdade é que escondeu-se a crise e ao esconder a crise o governo de então conseguiu se reeleger. Acontece que você não consegue enganar a todos por muito tempo, uma hora a verdade vem à tona e é isso o que está acontecendo agora. Por exemplo, escondeu-se a dos preços nos preços administrados, que sofreram intervenção em 2012 a partir de um decreto para o setor elétrico, lembra disso?

Diário – Sim, onde mais?
Teles – Escondeu-se também que os preços dos combustíveis estavam sendo defasados e estavam baixos virtualmente, quando na verdade isso provocou um endividamento da nossa principal empresa nacional que é a Petrobrás. Escondeu-se também o déficit nas contas públicas porque se inventou nos últimos anos uma tal de contabilidade criativa, aonde você registrava receitas que de fato não se comprometiam. Se omitiam informações e ontem [sexta-feira] foi divulgado que o déficit da União, do governo central bateu o recorde histórico chegou a mais de R$ 20 bilhões. Essas informações iriam nortear a decisão do eleitor durante o processo eleitoral, mas isso tudo foi escondido e numa eleição que foi definida pela margem que tivemos isso realmente teria uma forte influência.

Diário – E com relação ao Amapá, qual o cenário, por exemplo, de endividamento da máquina estadual agora que eclodiram problemas como atrasos de fornecedores e até do pagamento da folha de pessoal?
Teles – O problema é que o ajuste fiscal da máquina administrativa nos últimos quatro anos foi feito apenas no discurso, não foi feito na prática. E uma hora isso também viria à tona. A verdade é que o Amapá, assim como o Brasil, precisa de uma forte reforma administrativa. Não dá para você morar numa casa de dez quartos tendo condições de manter apenas dois quartos, portanto é irreal achar que o Amapá com o penúltimo PIB do Brasil pode ter uma estrutura administrativa do tamanho da que tem e isso é uma implicação de algo que já se tem há algum tempo, portanto não vejo nenhuma surpresa isso ter acontecido agora no final do ano. Quanto ao endividamento do Estado tem uma questão de registro de dívidas que de fato o governador atual absolveu mas tem também a questão de dívidas adquiridas a partir do atual governo, como o BNDES, que são dívidas necessárias. Mas o cerne do problema não está aí, mas sim na necessidade de reforma do estado e de redução do tamanho da máquina administrativa. Sem essas medidas locais eu acho difícil se restabelecer o fluxo de caixa do governo e poder pagar em dia suas despesas.

Perfil

O economista Antônio Pinheiro Teles Júnior tem 30 anos, nasceu no município de Amapá-AP. Formado em Economia pelo Centro de Esino Superior do Amapá (CEAP), onde também fez sua pós-graduação em Análise e Elaboração de Projetos; possui Mestrado em Finanças pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro (RJ). É especialista em Estatística, atua como consultor da empresa especializada Numéric Consultoria. É também professor universitário, leciona a disciplina Economia na Universidade Federal do Amapá (Unifap). Já atuou também como técnico da Agência de Desenvolvimento do Amapá (Adap) e também assessor especial do Gabinete Civil do Governo do Amapá (GEA).   

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