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sábado, 19 de julho de 2014

Artigo do senador e ex-presidente da República José Sarney

 
Machado não está com nada

JOSÉ SARNEY


A Folha publicou certa vez que Machado de Assis foi recusado por três das maiores editoras do país e esquecido (nem resposta) por outras três. Precisava o jornal pesquisar até onde os escritores sobrevivem.
Machado de Assis não passou no teste mercadológico. E quem passa na era do "best seller", vendido antes de escrito, resultado de uma pesquisa de mercado querendo saber o que o povo quer ler e programado para ter e ganhar milhões de leitores e dólares? Crise do livro ou de autores?
Acho que nada no mundo vai acabar com autores e o livro. Ele é uma das mais perfeitas descobertas tecnológicas do homem. O livro não precisa de energia, não precisa ligar e desligar. Cai e não quebra. Pode ser aberto e fechado em qualquer página, sem nenhuma palavra-chave. Pode ser levado para qualquer lugar. Tem todos os programas imagináveis, do conhecimento à ficção. Pode-se ler na cama e no banheiro. Como levar um computador a esses lugares? Pode-se, mas não é nada confortável nem desejável.
Ao meu ver, o que vai assegurar a sobrevivência do verdadeiro livro é a poesia. A poesia não tem mercado, logo não vai ter pesquisa de mercado. O poeta não escreve pensando em ganhar milhões nem de leitores nem de dólares. A poesia, como diz o poeta português Armando Carvalho, "é uma forma de um lento suicídio". Ela salvará os escritores e os livros.
Borges também seria recusado, diz um escritor argentino. Os livreiros brasileiros afastaram Machado de Assis porque "o parecer de uma comissão de leitura não lhe foi favorável", e uns estimularam: "Desejamos sorte nos seus futuros contatos". Outro foi mais longe: "Gostaríamos que você nos enviasse seu endereço". Machado responderá: "Desde o dia 21 de abril, no cemitério São João Batista, mausoléu da Academia Brasileira de Letras".
Saramago pede, na Bienal do Livro, que se estimule o hábito da leitura. Ele sabe do que fala, porque alguns dos seus livros precisam mais do que hábito, uma possessão pela leitura. Outro dia, entrei no plenário vazio do Senado para marcar minha presença no ponto eletrônico. Estava um grupo de crianças de uma escola primária visitando. A guia dizia: "Aqui é o lugar de reunião dos senadores". Um menino mais curioso perguntou: "Quem é aquele homem que está ali?". Referia-se ao busto de Ruy Barbosa, entronizado na sala. Responde a moça: "É Ruy Barbosa, patrono do Senado, notável escritor". E perguntou: "Alguém sabe de que Estado era Ruy Barbosa?". "Sei, sim senhora." "Qual é?" "Do Estado Unidos." "Não, meu filho, ele era da Bahia", disse a guia, benevolente.
Saí de mansinho, matutando: esse menino vai longe, já está no contexto.
Num programa para jovens, na televisão, também indagaram quem era Guimarães Rosa, e a resposta veio rápida: "Grande compositor de "Chão de Estrelas'".
Afonso Pena Júnior contava que veio de Minas para o Rio, no famoso trem noturno, maravilha do princípio do século, e, depois da intimidade de uma longa viagem, deu-se a conhecer para seu vizinho de cadeira: "Sou Afonso Pena Júnior". E o interlocutor, atônito: "Ué, gente, vai ver que é parente do Antônio Júnior, dono da mercearia do bairro onde eu moro". "Exatamente", respondeu o velho, com fino humor, "primos-irmãos".
É. A hora não estava para Machado. A onda era Chico Lopes.

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